"Não há problema, está tudo bem", responde um dos três holandeses instalados junto à base de uma outra arriba em risco na praia Maria Luísa, a cerca de 800 metros da derrocada. Nem 24 horas tinham passado do acidente. Cenário idêntico em várias praias algarvias ao longo da semana. Muitos banhistas prefiram manter-se à sombra junto das arribas, ignorando as placas de perigo de queda de pedras para desespero dos vigilantes dos areais, que nada mais podem fazer do que alertas...
O Ministério Público instaurou um processo-crime para apurar responsabilidades. O sector turístico, de uma forma geral, suspirou de alívio por não haver estrangeiros entre as vítimas, sobretudo britânicos, evitando assim maior eco a nível internacionais sobre o estado de vulnerabilidade da orla costeira. Enquanto isso, a Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Algarve (tutelada pelo Ministério do Ambiente) colocou no terreno, na terça-feira, três equipas de técnicos que vistoriaram 40 praias em quatro dias (texto ao lado).
Neste processo foram feitas algumas demolições pontuais - o que suscitou críticas dos ambientalistas. Na opinião do dirigente do Núcleo do Algarve da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), Gonçalo Gomes, demolir falésias não é a medida mais adequada. "É a solução possível neste momento, que se compreende em função da tragédia e numa altura em que as pessoas exigem medidas concretas. A interdição, com a colocação de barreiras de algumas zonas das praias com falésias mais perigosas seria uma boa solução definitiva. Ao mesmo tempo, é preciso educar as pessoas para de uma vez por todas não ignorarem a sinalética de perigo nas falésias", disse ao DN o ambientalista. Já a Almargem, Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental, sediada em Loulé, lamenta a sobreocupação das zonas das falésias com construções pesadas, nomeadamente empreendimentos turísticos e moradias, e a consequente destruição da vegetação natural, com os riscos daí resultantes.
Excluída para já está o fecho total de praias no Algarve, numa altura em que se estuda a delimitação das zonas mais perigosas no areal com barreiras metálicas e baias para impedirem a circulação dos utentes junto a falésias em risco de derrocada. É que a colocação de fitas pode não ser suficiente. "Não consideramos a possibilidade de fechar praias por completo. Temos a convicção de que não existe nenhuma onde seja necessário fazer isso. Mas, no âmbito das avaliações em curso, poderá haver, em caso extremo, a necessidade de interditar algum areal, embora sempre parcialmente", disse ao DN Paulo Cruz, vice-presidente da ARH.
Os concessionários de apoios balneares receiam que possam ocorrer mais acidentes na região algarvia e lamentam ter sido ignorados há dez anos sucessivos alertas feitos pessoalmente a engenheiros da então Direcção Regional do Ambiente (agora ARH). "Foram bem avisados há dois ou três anos para o perigo de derrocada de arribas na Praia Maria Luísa, onde agora morreram cinco pessoas. Mas diziam que se tratava de "rochas sólidas, que não estão em perigo e isto não cai", lembrou ao DN o presidente da direcção da Associação dos Industriais e Similares de Concessões da Orla Marítima do Algarve (AISCOMA), Francisco Barbosa.
Na praia D. Ana, Lagos, Carlos Pacheco, nadador-salvador, foi insultado por banhistas que permaneciam junto a arribas quando os alertava para os riscos. Lembra que muitos arrancam placas e derrubam barreiras. Agora, já olham para cima e perguntam: "Como são as arribas nesta praia?"







