Praia de Santa Eulália, em Albufeira, na quarta-feira. Espaço de sobra para a toalha... Há algo que não bate certo na fotografia. O céu está limpo e o vento sopra devagar, só o estritamente necessário para aliviar na pele o calor intenso do sol. O mar calmo, quase sem ondulação, ajuda a compor o cenário de um dia perfeito de Verão no Algarve. Mas nas espreguiçadeiras não se vêem corpos bronzeados, nem há famílias a descansar à sombra dos toldos. Pouco passa das 17h e na quase sempre apinhada praia de Santa Eulália, perto de Albufeira, há espaço de sobra para estender toalhas. Estaremos enganados no calendário? Olhamos para um lado e para o outro e questionamos. "Que dia é hoje, mesmo?". 15 de Julho. Habitualmente, por esta altura, já meio país rumou a Sul e está instalada a confusão na maior parte das praias algarvias. Agora, não é o caso. E o cenário repete-se um pouco por toda a região. "Estou no Algarve há 30 anos e não me lembro de um Verão assim tão mau", resume Paulo China, sócio de Luís Figo no conhecido Bar Sete, em Vilamoura. Com vista de camarote para a Marina, bem de frente para os barcos mais luxuosos ali ancorados e rodeado de esplanadas, restaurantes, bares e geladarias, China considera-se "o melhor barómetro do Algarve". Garante que sabe, como ninguém, tirar o pulso à região e decifrar, por mais imperceptíveis que sejam, mudanças no comportamento dos turistas. Por ser um dos empresários mais conhecidos da zona, é a ele que muitos costumam recorrer para saber onde podem alugar um barco de luxo, qual o melhor sítio para fazer jet sky ou como conseguir reserva nos restaurantes mais concorridos. Este ano, porém, o seu telemóvel anda anormalmente silencioso. "Está tudo aflito. A crise é geral", garante. Atinge portugueses e estrangeiros, ricos e remediados. Por isso, os restaurantes baixaram os preços, os bares alargaram as happy hours e os hotéis multiplicaram promoções para atrair clientes. Mas todos se acanham na hora de gastar. "No ano passado, por esta altura, a avenida estava cheia de carros e as pessoas faziam fila à espera dos barcos. Agora é um deserto", lamenta Pedro Salve-Rainha, 35 anos, pescador no Inverno e condutor dos aquatáxis que no Verão cruzam a Ria Formosa entre Santa Luzia e a praia da Terra Estreita, na ilha de Tavira. O preço da viagem até está 50 cêntimos mais barato do que em 2008, mas o movimento é tão pouco que um dos três barcos já nem sequer deixa o cais. Por isso, as palavras saem-lhe pesadas. "É o pior Verão de sempre", diz. O discurso é o mesmo por todo o Algarve. Andamos 90 quilómetros e a Oeste nada de novo. Em Portimão, Paulo Santos, 50 anos, também nunca viu "desgraça maior". Usa "o paleio todo" para tentar vender passeios de barco e visitas às grutas, mas já não consegue convencer os poucos turistas que por ali têm passado, junto à zona ribeirinha. "Uma viagem de mais de duas horas custa €15, mas as pessoas dizem que é muito e só querem descontos", desabafa. Dos barcos aos hotéis, nas esplanadas ou nos bares, regatear preços tornou-se mesmo prática corrente no Algarve. Tony Pereira, sócio de cinco dos mais conhecidos bares e discotecas em Albufeira, não se lembra de nada semelhante. "Agora é só negociar, negociar, negociar. Andam sempre a pedir descontos no consumo obrigatório e mesmo os bons clientes estão a gastar 30% menos. A falta de poder de compra é abismal", observa. Por isso, confessa ter agora conhecido, pela primeira vez em duas décadas, o amargo sabor do prejuízo. "O ambiente está estranho. Dantes andava tudo feliz, as pessoas sentiam-se bem-dispostas por estarem de férias. Pagavam rodadas a todos. Agora bebem uma imperial. Vêem o preço de tudo. Andam com ar preocupado", observa Jon Schauder, director-geral do grupo Oceânico, proprietário de sete campos de golfe na região. Perante cenário tão negro, todos depositam as últimas esperanças no mês de Agosto, habitualmente o mais forte do turismo no Algarve. Mas não têm grande fé. Para todos os efeitos, este já é 'o Verão do nosso descontentamento'. Barcos à venda na Marina de Vilamoura É um dos mais emblemáticos locais do Algarve, mas já não transmite o mesmo glamour. Dos mais luxuosos aos mais pequenos, são às dezenas os barcos à venda. "Os proprietários de classe média/média alta estão francamente em contenção devido à crise. Os barcos são bens acessórios e, por isso, os primeiros de que se vêem livres", afirma a directora da Marina, Isolete Correia. 20% é a quebra nas receitas da hotelaria relativamente a 2008. A desvalorização da libra afastou do Algarve milhares de turistas britânicos, que até ao ano passado superavam os portugueses em número de dormidas. Para responder à falta de procura, os hotéis multiplicam promoções, mesmo em plena época alta. Ainda assim, abundam quartos vazios. Na zona de Faro e Olhão a taxa de ocupação dos hotéis no mês passado nem sequer chegou aos 50%. Vilamoura, Albufeira, Carvoeiro e Lagoa também estão entre as zonas mais afectadas. Em Portimão, as sardinhas acumulam-se Nos restaurantes da zona ribeirinha, as quebras chegam aos 45%. Ao todo, são 2 mil lugares sentados, mas há dias em que não estão mais de 10 pessoas. "Um casal aqui, uma família acolá. Não vem quase ninguém", desabafa José Barreira, sócio da Casa Bica, o mais antigo restaurante da cidade. No Verão passado, servia, em média, 120 quilos de sardinha. Agora, não ultrapassa os 80. 255 mil passageiros a menos do que no ano passado. O Aeroporto de Faro, a grande porta de entrada dos turistas estrangeiros, sobretudo ingleses, para o Algarve regista uma quebra de 10% em relação a 2008. Só em Junho chegaram menos 50 mil passageiros. "Anunciam-se muitas rotas, mas outra coisa é a sua concretização. Há muitos operadores a fazer cancelamentos", lamenta Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve. Crise atrasa construção do primeiro 6 estrelas do país A inauguração do Palácio da Quinta, na Quinta do Lago, estava prevista para este ano, mas os promotores admitem que o "cenário económico" obrigou a adiar a abertura para 2011. No futuro empreendimento mais luxuoso de Portugal, uma suite deverá custar €500/noite. O mercado dirigido às classes mais altas ressente-se. A venda de casas na Quinta do Lago regista quebras de 15%. 30% a 40% é a diminuição registada no número de jogadores nos campos de golfe do Algarve. E em alguns as quebras são ainda maiores, revela Jon Schauder, director-geral do grupo Oceânico, que gere sete campos de golfe na região, entre os quais cinco em Vilamoura. Ao contrário do resto do turismo, é na Primavera e no Outono que o golfe tem a sua época alta. Mas este ano foi para esquecer. "Em Maio batemos no fundo", confessa. Em média, as receitas provenientes do golfe caíram 18% em todo o Algarve. Governo vai reforçar linhas de crédito para o turismo O secretário de Estado do Turismo reconhece que "a situação é preocupante", mas garante que o Governo vai lançar, até final do mês, medidas de urgência para o sector. O Executivo vai reforçar as linhas de crédito para as empresas, que actualmente já beneficiam de cerca de €560 milhões. E prepara-se para alargar ao turismo o plano lançado para a indústria automóvel e que prevê a colocação dos trabalhadores em programas de formação profissional suportados pelo Estado nas alturas de menor actividade. "O Estado passará a assegurar grande parte do salário dos trabalhadores nos períodos de menor procura", anuncia o responsável. Numa região onde o principal mercado de trabalho é totalmente sazonal, sempre reinou a lógica da formiga: amealhar no Verão para sobreviver no Inverno. O problema é que, este ano, a época balnear está a render muito menos que o normal. "Habitualmente, os empresários faziam aos trabalhadores contratos de seis meses. Mas este ano, devido à crise, contratou-se menos e por períodos menores, o que põe em causa a atribuição do subsídio de desemprego depois do Verão, com todos os problemas sociais que daí advêm", explica Nuno Aires, vice-presidente do Turismo do Algarve. Num dos mais antigos restaurantes de Portimão, por exemplo, estão agora a trabalhar 10 funcionários, metade dos que asseguraram o serviço em 2008. Tão poucos que nenhum poderá tirar folga até final de Agosto. "Tenho empregados com contrato de dois meses e até com contrato de um mês. Quando terminarem, ficam na miséria. Nunca tinha feito isto, mas não havia alternativa. Há dias em que só servimos nove ou dez refeições", conta José Barreira, sócio da Casa Bica, "o Rei da sardinha assada". Com a libra a cair, já quase não se ouve falar inglês nas esplanadas. Para reduzir a dependência do mercado britânico, até aqui o mais forte, o Governo vai também reforçar as campanhas e apostar em "mercados como a Rússia, a Polónia e o Brasil". Joana Pereira Bastos (textos) e José Ventura (fotos) |