Assaltos a alfarrobeiras lançam terror

Morte de jovem, há uma semana, fez aumentar insegurança entre moradores numa zona onde se produz, por ano, meio milhão de arrobas de alfarrobas. Cada uma vale quatro euros.
Há mais de seis anos, a população da zona de Paderne, situada no interior do concelho de Albufeira, vive num ambiente de insegurança, sobretudo durante o mês de Setembro, devido a assaltos a moradias e terrenos agrícolas onde se encontram toneladas de alfarrobas. Com o homicídio de um jovem na semana passada, o medo cresceu e a GNR regista denúncias verbais, mas a maioria dos lesados nem apresenta queixa.
A morte do jovem André Paiva, de 19 anos, alvejado com dois tiros, um na cabeça e outro numa perna, há uma semana, no quintal da casa onde vivia, na zona de Cerro do Roque, após uma discussão envolvendo indivíduos de etnia cigana, quando cuidava do seu avô paterno, de 86 anos e acamado, contribuiu ainda mais para aumentar o sentimento de terror nesta época do ano.
Na altura, o rapaz defendia a propriedade de intrusos, na qual se encontravam guardadas 600 arrobas de alfarroba avaliadas em cerca de 36 mil euros. Desta vez, dali não foram levadas alfarrobas, mas, há dois anos, em consequência de um outro assalto, a família ficou sem 48 sacos, cada um com uma arroba daquele fruto seco.
O mais grave é que o homicídio, que está a ser investigado pela Polícia Judiciária, deixou naturalmente a família e os vizinhos arrasados.
"Tenho medo de chegar a casa e levar um tiro, mas nada podemos fazer. A polícia é que tem de apanhar quem cometeu o crime", diz ao DN Helena Paiva, mãe do rapaz que tinha concluído o 12.º ano e era futebolista do escalão júnior do Padernense.
Já Anatólio Cabrita, de 66 anos, que vive próximo da casa da vítima e que na segunda-feira à tarde (o rapaz foi encontrado morto pelo pai cerca das 18.20) viu movimentações suspeitas numa carrinha Ford branca de caixa aberta com um casal de etnia cigana e duas crianças, lembra ao DN que lhe foram furtados, no dia 5 deste mês, quando se tinha ausentado de casa para ir ao mercado de Paderne, "cinco sacos de alfarroba, um rádio que estava em cima da mesa e duas machadas para cortar carne. Também tinha amêndoas, mas não as levaram".
Por isso, Anatólio Cabrita, que possui um terreno em Cerro do Roque com cerca de mil alfarrobeiras, não exclui a possibilidade de vender já o produto "antes que me roubem, para não perder dinheiro".
"Os gatunos atacam normalmente durante o dia, quando não está ninguém em casa. Tenho uma caçadeira e vou estar de alerta a partir de agora", garantiu ao DN na altura da morte do vizinho.
Naquela zona vivem cerca de duas dezenas de pessoas em moradias dispersas. Na sua maioria, as casas estão desocupadas. A cerca de três quilómetros, junto à estrada no sítio Vale Pegas, Arménia Bacalhau, de 58 anos, reconhece ao DN que "é difícil controlar os assaltos às propriedades" com alfarrobeiras.
"Há muito que se suspeita dos ciganos e de existir um grupo receptor de alfarroba residente na zona de Tunes, aqui perto. Aproveitam a ausência das pessoas para assaltarem os terrenos. Nunca apresentei queixa na GNR. Mas de que vale a gente queixar-se?", lamenta aquela habitante.
Ainda recentemente ela e um outro morador acabaram por impedir um assalto a uma carrinha de um vizinho em plena estrada. "Estavam ali três ciganos que, quando nos viram, acabaram por fugir. Todos os anos há roubos de alfarroba nesta zona. Em 2008 valia cinco euros, agora vale menos", lembra Arménia Bacalhau, para quem os assaltantes acabam por vender o fruto mais barato.
Só em 2009, a GNR recebeu "uma meia dúzia de queixas verbais" sobre assaltos a propriedades com alfarrobeiras naquela zona do concelho de Albufeira, disse ao DN fonte do Comando Territorial de Faro. As queixas apontavam o dedo a indivíduos de etnia cigana, mas são "pouco consistentes, com nada de concreto", pelo que é difícil provar quem comete o crime.
Como o DN referiu na passada semana, o mês de Setembro é a altura ideal para colher alfarroba e o preço no mercado de um saco pesando uma arroba (15 quilos) é de quatro euros. Depois, poderá atingir os 4,5 euros ou até mais consoante a época do ano e a procura por parte dos interessados.
Este produto agrícola típico do Algarve é utilizado normalmente em rações para animais. Já o caroço costuma ser aproveitado na confecção de medicamentos, nomeadamente de xaropes.
Na zona de Paderne há cerca de um milhar de proprietários de terrenos com alfarrobeiras, as quais ultrapassarão as cem mil, a que corresponderá uma produção anual de meio milhão de arrobas de alfarrobas. Em média, uma árvore pode produzir cinco arrobas.
JOSÉ MANUEL OLIVEIRA