O último dia do "menhir" da praia Maria Luísa

Posted on 8/23/2009 by TVA TV ALBUFEIRA ONLINE

O «menhir» que vai deixar de ser o ex-líbris da praia Maria Luísa
O «menhir» que vai deixar de ser o ex-líbris da praia Maria Luísa
José Pedro Castanheira

Hoje, domingo, 23 de Agosto, é o último dia do "menhir" da praia Maria Luísa. O enorme rochedo, que tinha uma forma muito semelhante aos famosos pedregulhos transportados pelo herói da banda desenhada Obélix, vai hoje abaixo, depois de, na última sexta-feira, ter desabado parcialmente, arrastando consigo cinco mortos e três feridos. Ontem, numa breve inspecção ao estado do rochedo, o vice-presidente da Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Algarve, Paulo Cruz, deu a sua sentença.

A rocha irá ser parcialmente destruída, com o recurso a três máquinas - muito provavelmente as mesmas que, no dia 21, tentaram desesperadamente libertar os corpos esmagados sob pedregulhos de muitas toneladas.

O responsável da ARH disse que tudo será feito para que não seja necessário destruir por completo aquela rocha. Qualquer que seja o resultado desta "intervenção" das máquinas e dos homens, o rochedo não mais terá a forma de um menhir.

A inclinação e o volume do rochedo fazem lembrar a Torre de Pizza
A inclinação e o volume do rochedo fazem lembrar a Torre de Pizza
José Pedro Castanheira

Um rochedo diferente todos os anos

Aliás, o rochedo assassino só há muito poucos anos assumiu a forma de um menhir plantado no extremo Leste da praia Maria Luísa. Nos últimos trinta ou quarenta anos, a sua forma e configuração foi-se alterando, ao sabor de agentes tão poderosos e incontroláveis como as marés e as ondas, os ventos, a chuva, o calor, os sismos. Sem esquecer o homem, esse elemento que, por actos e omissões, consegue por vezes produzir efeitos superiores a todos os elementos naturais juntos...

Quase todos os anos o rochedo aparecia diferente aos olhos dos banhistas e do pessoal que trabalha e vive nesta praia, sempre tão bela, segura e tranquila, a ponto de ter sido escolhida pelo célebre Clube Med para se instalar em Portugal.

Tempos houve em que foi uma espécie de enorme gruta, que fazia as delícias das crianças, mas também de pares de namorados. Depois, as paredes laterais foram cedendo, dando lugar a uma espécie de dupla arcada, que fazia a ligação do rochedo à falésia. Essas arcadas- uma para Norte, outra para Leste - acabavam por lhe dar alguma protecção e resistência. Mas também as arcadas cederam. Os técnicos ambientais saberão ao certo quando e porquê. Uma das arcadas acabou mesmo por ser destruída por acção do homem - e com razão, já que poderia desabar a todo o momento. Só que aquelas duas arcadas acabavam por escorar o rochedo, que, de repente, deixou de ter qualquer suporte lateral.

Inclinada como a Torre de Pizza

No princípio deste Verão, nos feriados de Junho, o "menhir" lá estava: estranho na sua forma, enorme nos seus 12 ou 15 metros de altura, belo e altivo - mas claramente ameaçador. Ligeiramente inclinado para o mar, fazia lembrar aos mais imaginativos, a Torre de Pizza. A base estava a ser continuamente erodida por ondas e marés.

De tal forma que, para além das placas - que ainda lá estão, do Instituto de Socorros a Náufragos -, havia uma vedação em todo o perímetro, com uma fita plástica vermelha e branca, a "interditar" a passagem de pessoas. A fita era - é! - a prova insofismável que o rochedo representava um risco (apenas potencial? Já iminente?) para quem passasse por perto.

Em conversas que então tive com os concessionários da praia, com nadadores-salvadores e outras pessoas cuja vida se confunde com a da praia, era manifesta a preocupação e o receio. Houve mesmo quem propusesse a resolução imediata do problema com um pequeno petardo na base do "menhir" e uma explosão devidamente controlada - desde que autorizada...

As flores ontem depositadas na praia Maria Luísa não fazem esquecer os cinco mortos
As flores ontem depositadas na praia Maria Luísa não fazem esquecer os cinco mortos
José Pedro Castanheira
A culpa vai morrer solteira

O desfecho é conhecido - e só há que dar graças a Deus por não ter havido mais vítimas mortais, tal o número de banhistas que este Agosto acorreram à praia, batendo seguramente todos os recordes de afluência.

Muito provavelmente, e ao contrário do que aconteceu com a queda da ponte de Entre-os-Rios, na Maria Luísa a culpa vai morrer solteira. O ministro do Ambiente, Nunes Correia, apressou-se a dizer, logo no dia da tragédia, que não tinha havido qualquer "negligência" dos seus serviços. As responsabilidades estão todas a ser direccionadas para o sismo que no dia 19 se fez sentir no Algarve - e que, com uma magnitude de 4,2 na Escla de Richter, muito provavelmente deixou as suas marcas no rochedo.

O maior acidente do género


Amanhã, segunda-feira, quando os banhistas voltarem à sua praia de eleição, ela estará bem diferente. Em vez do "menhir" colossal, e seu ex-libris, vai estar uma rocha igual a tantas outras da costa algarvia. Certamente - e felizmente - que mais segura. A Maria Luísa ainda estará de luto algum tempo, porventura sem bandeira azul e com as duas bandeiras nacionais a meia-haste. O tempo ajudará a curar feridas. Mas era muito importante que a tal culpa - de quem quer que seja -, não voltasse a morrer solteira, como quase tudo neste país de fatalidades... Tratou-se, tão somente, do maior acidente do género de que há registo em Portugal. E que custou cinco vidas.

José Pedro Castanheira