Energia marítima abastece residências em Portugal

Posted on 1/30/2009 by TVA TV ALBUFEIRA ONLINE


O “primeiro parque de ondas do Mundo”, com vista à produção de energia, situa-se ao largo da praia da Aguçadoura, a quinze quilómetros a norte da Póvoa de Varzim. Trata-se de uma tecnologia escocesa, que pode tornar Portugal num dos líderes mundiais no aproveitamento energético do movimento das ondas. Nos estaleiros navais de Peniche uma equipa de trinta elementos realizou a montagem das primeiras três máquinas de 750 kilowatts cada, correspondentes à primeira fase do projecto Okeanós, num investimento de cerca de oito milhões e meio de euros, resultante de consórcio que envolve o promotor português Enersis - uma empresa de energias renováveis - e o parceiro tecnológico escocês Ocean Power Delivery (OPD), financiado em quinze por cento (1,25 milhões de euros) por apoios públicos, no âmbito do programa de incentivo à modernização da economia (PRIME). Os três dispositivos vão ser instalados a cinco quilómetros da costa, prevendo-se que até ao final do ano já terão capacidade para uma produção média anual de sete gigawatts por hora, capaz de suprir as necessidades de mais de 1500 residências, o equivalente a cerca de seis mil habitantes.
Em 2008, quando estiver concretizada a segunda fase, conta-se que estejam instaladas 28 máquinas produtoras de 20 megawatts, num investimento que rondará os 70 milhões de euros. Segundo Richard Yemm, inventor da máquina Pelamis e responsável técnico da OPD, “este é um marco significativo para o mercado das ondas. Vemos esta encomenda como apenas o primeiro passo para o desenvolvimento do potencial português, que pode crescer até um milhão de euros em dez anos”. Estima-se que em Portugal, ao longo da costa, se poderão instalar dispositivos de conversão capazes de gerar o equivalente a mais de vinte por cento do actual consumo eléctrico. A perspectiva é que possa ser desenvolvido um parque de aproveitamento com 150 destas máquinas, à volta dos 125 megawatts, potência que pode abastecer de energia vários concelhos do norte do país, onde as ondas são mais fortes. Mas a existência de 250 quilómetros de costa (a 50 metros de profundidade) utilizável para o aproveitamento da energia das ondas em parques criados para o efeito é apontada como uma mais-valia por Martin Shaw, director de projecto da OPD.
“Há uma grande extensão de costa apropriada e é importante escolher os melhores locais, onde haja facilidades de ligação à rede eléctrica”, apontou.No centro do país, o município da Nazaré poderá vir a ter um dos parques de ondas para produção comercial de energia. O executivo camarário manifestou-se interessado em acolher o projecto. Estudos já realizados apontam a Praia do Norte como a localização adequada.“A construção das futuras máquinas será quase toda feita em Portugal – ao contrário das três que estão a ser montadas em Peniche e que vieram da Escócia – mas o local escolhido para a instalação de uma fábrica ainda não foi decidido”, revelou Martin Shaw.Os aparelhos têm uma forma cilíndrica e o impacto visual é considerado “mínimo”, sendo devidamente assinalados com bóias e marcados nas cartas marítimas. Cada máquina Pelamis mede aproximadamente 140 metros de comprimento, tendo 3,5 metros de diâmetro. Pesa 700 toneladas e fica distanciada das outras a cerca de 225 metros. Assemelha-se em termos de “design” a cinco carruagens de comboio de alta velocidade, embora sem janelas, flutuando cerca de um metro acima do nível das águas.
“Cluster” para exportaçãoPortugal é um país estratégico na produção de energia a partir das ondas e possui um dos maiores potenciais a nível mundial para a utilização desta energia renovável. De acordo com Max Carcas, director comercial da OPD, “Portugal goza de um excelente recurso, denso, estável e previsível, não estando sujeito a fenómenos meteorológicos. O parque de ondas diminuirá as perdas e aumentará a segurança de abastecimento”.Existe um conjunto de localizações potenciais para explorar esta fonte de energia na Europa, sendo as mais promissoras no Reino Unido, Irlanda, França, Espanha, Noruega e Portugal. A instalação de um "cluster" das ondas abre uma janela de oportunidades para exportações de alta tecnologia, para além da importância que terá para a metalomecânica nacional.Para Max Carcas, “o Governo português foi visionário em ver o potencial de energia produzida pelas ondas, que complementa a energia eólica, tornando-se Portugal a maior fonte energética do mundo”.A nível global, estima-se que o mercado em causa valha 325 mil milhões de euros. Descurar a oportunidade de lançar um “cluster” industrial seria imediatamente aproveitada por outros países que estão de olhos postos na energia das ondas.
No próprio país produtor desta tecnologia – a Escócia, em 2008 será construído o primeiro parque de energia das ondas instalado no Reino Unido com fins comerciais, nas ilhas Orkney. O projecto, avaliado em cerca de quinze milhões de euros, prevê a produção de energia suficiente para três mil habitações.Portugal reúne condições para se lançar, de forma pioneira, a nível comunitário, na exploração da energia das ondas, por ainda não haver nenhum país com uma estratégia completamente definida nesta área.Vantagens sobre o ventoO motivo pelo qual esta fonte de energia renovável é considerada importante prende-se com a sua previsibilidade, resultando numa produção de electricidade muito constante. Ao contrário do vento - matéria-prima nas eólicas -, as ondas podem prever-se com cinco/seis dias de antecedência. Segundo a OPD, “as ondas representam um recurso energético renovável cuja dimensão não é desprezável. São geradas pelos ventos à medida que estes sopram na superfície dos oceanos e podem viajar distâncias consideráveis sem perdas significativas de energia”.
A potência de energia das ondas de alto mar é mais concentrada e tecnicamente mais estável do que a das ondas de rebentação ou mesmo que a gerada pelo aproveitamento do vento. O aproveitamento é dez a vinte por cento superior ao do vento e essa vantagem compensa os custos de instalação, que por ser uma tecnologia inovadora é mais cara - quase três vezes e meia mais do que a eólica.